Parte V · 1 — As alavancas da fronteira
Nem toda decisão importa igual. Esta é a ordem real das alavancas que movem a qualidade de um modelo — onde gastar esforço primeiro.
🎨 Figura
F-V.1— As alavancas, em escala. Brief: infográfico de 5 alavancas (réguas/manivelas) de tamanhos decrescentes: Dados (maior) → Pós-treino → Compute → Arquitetura → Evals; rótulo "ganho marginal" diminuindo. Paleta do Compêndio.
1.1 A ordem das alavancas
- Qualidade dos dados — de longe a maior. FineWeb-Edu vs. Common Crawl cru
= várias classes de modelo de diferença.
- Pós-treino (SFT + RLHFDPORLVR) — frequentemente rende mais que aumentar
o modelo 10×.
- Compute — ainda importa; em 2024-2026, RL de raciocínio > pré-treino
no ganho marginal.
- Arquitetura — MoE, GQA, atenção eficiente dão 10–30%; não decisivos.
- Evals e iteração — sem boas avaliações, você navega no escuro.
Armadilha comum: otimizar arquitetura exótica antes de ter dados e evals bons. Os modelos de fronteira são todos Transformers/MoE — a diferença está em dados e pós-treino, não na arquitetura.
1.2 RLVR — o paradigma de raciocínio (2024–2026)
O ganho mais dramático em raciocínio vem de RL com recompensas verificáveis (RLVR) em escala massiva — fundamento do DeepSeek-R1, o1/o3 e do *extended thinking* do Claude.
- Ideia: gere uma resposta com cadeia de raciocínio; verifique se está certa
(teste, prova formal, resultado numérico); recompensa = passou/não-passou.
- Algoritmos: PPO e GRPO (DeepSeekMath); Process Reward Models (PRMs)
avaliam cada passo.
- Por que funciona: domínios com verificação barata (código, matemática)
permitem RL em escala quase grátis.
1.3 Test-time compute
Gastar compute na inferência frequentemente rende mais que aumentar o modelo: múltiplas amostras + verificação (best-of-N), MCTS em texto, beam search com PRM. É o fundamento dos modelos o1/o3 e do extended thinking.
1.4 Dados sintéticos e auto-melhoria
Todo modelo de fronteira desde 2023 depende pesadamente de dados sintéticos:
- Phi (Textbooks Are All You Need), WizardLM (Evol-Instruct), MetaMath.
- Self-Rewarding LMs, ReST^EM (self-training).
- ⚠️ Curse of Recursion: treinar em dados gerados sem filtragem rigorosa
degrada o modelo. Filtre pelos verificáveis.
1.5 Contexto longo e memória
Gemini processa 1M–10M tokens; Claude 200K–1M. Muda o que arquiteturas "superinteligentes" conseguem fazer.
- Técnicas: Positional Interpolation, YaRN, Infini-attention.
- Estabilizando em 128K–2M tokens de contexto efetivo nos modelos de fronteira.
1.6 World models e arquiteturas pós-Transformer
- World models (para agentes que planejam): DreamerV3, Genie 2, V-JEPA.
- Híbridas: Mamba/Mamba-2, Jamba, xLSTM — ganhos em long-context e eficiência.
- Mas: a fronteira segue Transformer/MoE; a vantagem está em dados e pós-treino.
1.7 A escala da fronteira (e por que você não deve persegui-la)
Treinar um modelo de fronteira do zero exige 10.000–100.000 GPUs H100H200B200, 1–6 meses de treino contínuo, infraestrutura de checkpointing, e bilhões de capital.
Stack de fronteira: CUDA, NCCL, Triton, TransformerEngine, cuDNN, DeepSpeed ZeRO/FSDP, pipeline parallelism estilo Megatron. Labs gastam 15–30% do budget técnico em segurança (red teaming, jailbreak defense, interpretabilidade, Constitutional AI, scalable oversight).
Conclusão prática: não treine do zero. Escolha um domínio, use modelo aberto, e invista nas alavancas 1–2 (dados + pós-treino). Roadmap concreto no doc 06-ia-para-codigo.kmd e no estudo de caso 07-estudo-de-caso-kode.kmd.