Parte IV · 1 — DeFi: finanças sem intermediário

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Se o Ethereum é um computador mundial, DeFi é o que mais se construiu nele: reconstruir os serviços financeiros — trocar, emprestar, render — como contratos abertos, sem banco nem corretora no meio. Veja as peças e por que elas se encaixam.


1.1 O que muda sem intermediário

Finanças tradicionais dependem de uma instituição confiável que custodia ativos e executa ordens. DeFi (Decentralized Finance) substitui a instituição por contratos inteligentes (Parte III): o código custodia e executa, de forma pública e auditável, sem permissão.

Três propriedades vêm de graça — e definem o gênero:

  • Permissionless — qualquer um usa, sem cadastro nem aprovação.
  • Componível — protocolos se encaixam como "money legos": a saída de um é a

    entrada do outro, compondo produtos complexos a partir de peças simples.

  • Não-custodial — você controla seus ativos pela sua chave; o contrato não

    "tem" seu dinheiro, só executa regras.

DeFi como "money legos": peças componíveis sobre o contrato inteligente

A contrapartida brutal: o código é a lei. Um bug move dinheiro real e irreversível; não há gerente para reverter.


1.2 AMM: trocar sem livro de ordens

A peça mais elegante do DeFi é o AMM (Automated Market Maker). Em vez de casar compradores e vendedores num livro de ordens, um pool de liquidez mantém dois ativos e os precifica por uma fórmula. A mais comum é o produto constante:

O pool mantém x · y = k (constante). Comprar o ativo X significa devolver Y o bastante para manter o produto — o preço emerge da razão entre as reservas.

AMM de produto constante: o pool precifica pela razão das reservas

Quem deposita os dois ativos é um provedor de liquidez (LP) e ganha taxas das trocas — mas corre perda impermanente (impermanent loss): se os preços relativos mudam, manter o par no pool rende menos que simplesmente segurar os ativos. O Uniswap popularizou o modelo.


1.3 Empréstimo, stablecoins e o resto das peças

  • Lending — protocolos (Aave, Compound) onde se deposita colateral e se toma

    emprestado contra ele. Se o valor do colateral cai abaixo de um limite, a posição é liquidada automaticamente. Tudo sobre-colateralizado (você trava mais do que pega), porque não há análise de crédito.

  • Stablecoins — tokens atrelados a uma moeda (geralmente o dólar). Há os

    colateralizados por reservas fiduciárias (USDC) ou por cripto sobre-colateralizada (DAI), e os algorítmicos — que tentam manter a paridade só por incentivos e colapsaram espetacularmente (Terra/UST, 2022).

  • Oráculos — DeFi precisa de preços do mundo real on-chain; oráculos

    (Chainlink, Pyth) os entregam. São um ponto crítico: um oráculo manipulado quebra um protocolo inteiro (vetor comum de ataque).


Referência densa: AMMs, stableswap, lending, stablecoins, liquid staking e oráculos em 09-defi. A seguir: NFTs, RWA e além — quando o token representa algo que não é dinheiro.