Parte III · 2 — Ethereum e as L1 alternativas

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Se o Bitcoin é dinheiro, o Ethereum é um computador mundial: uma blockchain que roda programas. Essa generalidade fundou tudo o que veio depois — DeFi, NFTs, DAOs — e definiu o trade-off que as L1 alternativas tentam reequilibrar.


2.1 Ethereum: o computador mundial

O Ethereum (2015) generalizou a blockchain de "ledger de dinheiro" para "máquina de estado programável". Suas peças centrais:

  • Modelo de conta (Parte I) —

    cada endereço tem saldo e armazenamento, atualizados a cada transação.

  • EVM (Ethereum Virtual Machine) — uma máquina virtual Turing-completa

    que executa contratos inteligentes: código que vive na cadeia e roda exatamente como escrito, sem poder ser parado por terceiros.

  • Gas — como o código pode ser arbitrário, cada operação custa gas

    (pago em ETH), o que evita laços infinitos e precifica o uso da rede. O EIP-1559 (2021) tornou a taxa-base previsível e queima parte dela.

Em 2022 o Ethereum migrou para Proof of Stake (o Merge) e desde então otimiza para ser a camada de liquidação de um ecossistema de L2 (próxima seção) — o EIP-4844 (2024) criou blobs baratos para os rollups.


2.2 O contrato inteligente, em uma frase

Um contrato inteligente é um programa publicado na cadeia, com endereço e estado próprios, que qualquer um pode chamar e cujo resultado é garantido pelo consenso. É o que permite composabilidade — protocolos que se encaixam como "money legos", a saída de um virando entrada do outro. Esse encaixe é a fonte da explosão de DeFi (Parte IV) — e também da superfície de bugs caríssimos (reentrância, overflow), já que o código é imutável e move dinheiro real.


2.3 As L1 alternativas e o que cada uma rebalanceia

O Ethereum L1 prioriza descentralização e segurança, ao custo de vazão e taxas. Cada "Ethereum killer" reequilibra o trilema de um jeito diferente:

Família Aposta Trade-off
Solana vazão altíssima (paralelismo, Proof of History) menos validadores; mais exigência de hardware
Cosmos / Polkadot app-chains: cada app é sua própria cadeia, interligadas menos segurança compartilhada (cada chain se defende)
Cardano rigor formal (Ouroboros provado, eUTXO) evolução mais lenta
Sui / Aptos modelo de objetos (linguagem Move) ecossistema novo

Não há "melhor" absoluto — cada uma escolhe um ponto diferente no trilema. A tendência dominante do Ethereum, porém, não é competir em vazão no L1, mas escalar por cima com L2 — o tema final desta parte.


Referência densa: EVM, EIPs, account abstraction, Beacon Chain e o catálogo completo de L1 alternativas em 05-l1-ethereum e 06-l1-alt. A seguir: L2 e a escala — como crescer sem sacrificar a segurança da L1.