Parte III · Era 2 — Nascimento e Otimismo (1956–1973)

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A IA vira um campo com nome próprio. Cheia de avanços simbólicos e de promessas ambiciosas — algumas que levariam décadas (ou mais) para se cumprir.


Narrativa

No verão de 1956, em Dartmouth, um grupo de pesquisadores funda oficialmente a "Inteligência Artificial". O paradigma dominante é o simbólico: inteligência como busca e manipulação de símbolos. Surgem os primeiros programas que provam teoremas, jogam e conversam. O otimismo é enorme — previa-se IA de nível humano "em uma geração". A primeira rede treinável, o Perceptron, anima a vertente conexionista, até um livro de 1969 expor seus limites e esfriar a área.


Marcos

  • 1956 — Conferência de Dartmouth · McCarthy, Minsky, Shannon, Rochester ·

    cunha o termo "Artificial Intelligence"; marco fundador do campo.

  • 1956 — *Logic Theorist* · Newell & Simon · prova teoremas de lógica;

    considerado o primeiro programa de IA.

  • 1958 — Perceptron · Frank Rosenblatt · primeira rede neural treinável;

    aprende a classificar por ajuste de pesos.

  • 1958 — LISP · John McCarthy · a linguagem da IA simbólica por décadas.
  • 1965 — *General Problem Solver* · Newell & Simon · resolução genérica por

    busca de meios-fins.

  • 1966 — ELIZA · Joseph Weizenbaum · "psicoterapeuta" conversacional;

    expõe como humanos projetam inteligência (efeito ELIZA).

  • 1969 — *Perceptrons* · Minsky & Papert · prova limites do perceptron de

    camada única (XOR); contribui para o 1º inverno conexionista.

  • 1966–1972 — Shakey, o robô · SRI · primeiro robô a perceber, planejar e

    agir; berço do planejamento (STRIPS).


Pessoas

John McCarthy (1927–2011)cunhou "IA"; criou o LISP. Defensor do paradigma lógico/simbólico. 🖼️ Foto F-III.4.

Marvin Minsky (1927–2016)cofundador do MIT AI Lab. Teórico da mente como sociedade de agentes; coautor de Perceptrons.

Allen Newell & Herbert SimonLogic Theorist e GPS. Hipótese do "sistema físico de símbolos"; Simon ganhou o Nobel de Economia.

Frank Rosenblatt (1928–1971)inventor do Perceptron. Pioneiro do aprendizado conexionista; reabilitado pela revolução deep learning. 🖼️ Foto F-III.5 (Perceptron Mark I).


Curiosidades

  • O hype do Perceptron nas manchetes (1958). Uma reportagem do New York Times

    abriu anunciando um protótipo de computador que um dia poderia "andar, falar, ver, escrever, se reproduzir e ser consciente de sua existência." Rosenblatt disse que a máquina seria a primeira a "pensar como o cérebro humano" — uma que "cometeria erros, mas ficaria mais inteligente com a experiência." Na prática, só distinguia cartas simples.

  • Por que se chama ELIZA. Weizenbaum batizou seu chatbot de 1966 em homenagem a

    Eliza Doolittle, a florista de My Fair Lady (Audrey Hepburn) que, ao mudar fala e maneiras, se passa por membro da elite — nome à altura de um programa feito para simular atenção com regras simples. Alguns psiquiatras da época previram psicoterapia automatizada "em poucos anos" — algo que os chatbots atuais tentam de novo.

  • Um mito de origem contestado. A história de Dartmouth-como-nascimento é

    questionada por historiadores: um artigo de 2023 na BJHS Themes defende que as bases da IA também remontam à industrialização, ao militarismo e ao colonialismo — de cadeias de suprimento de minerais a lógicas coloniais de classificar pessoas e territórios — e não a um único workshop acadêmico. Como diz o historiador Victor Sobreira (USP), Dartmouth "foi um mito fundador, mas na prática um encontro de dois meses sem tanto avanço concreto."

Fonte: curiosidades levantadas pela reportagem da BBC News Brasil *"Máquinas podem pensar? Os 70 anos de história que levaram à inteligência artificial dos dias atuais"* (Luiz Fernando Toledo, 2025) — que entrevistou Anderson Rocha (Unicamp) e Victor Sobreira (USP) e recorreu a Empire of AI, de Karen Hao — conferidas com fontes primárias.


🎨 Figura F-III.6O verão de Dartmouth. Brief: cena ilustrada de uma sala de seminário dos anos 1950 (quadro-negro com "ARTIFICIAL INTELLIGENCE" escrito), figuras debatendo; ao lado, o Perceptron Mark I (painel de fios e potenciômetros) e o robô Shakey. Tom otimista, retrô.


Ligação com o Compêndio: o paradigma desta era é a IA Simbólica da galeria ../02-types-of-ai/01-symbolic.kmd; o Perceptron é a semente do paradigma conexionista (../02-types-of-ai/02-connectionist.kmd).